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Sunday, May 22, 2005
Recomeço agora as minhas aulas de voo.
Devagar, receosa de não ser capaz de me elevar alto no céu azul que vive sobre mim.
Sei que não serei capaz de voar tão alto.
Não mo permtirei.
Voo agora entre cá e lá. Entre esse céu azul fantástico que um dia me acolheu e este chão onde regressava todos os dias, entre voos mais desastrados.
Vejo as outras fadas passarem lá em cima. Algumas conseguem distinguir este pontinho escuro no chão, que é o meu corpo. Outras, nem por isso.
Não me incomoda.
Deixai-as voar, como eu já o fiz durante o tempo que me foi permitido fazê-lo.
E a sensação é boa, irão elas descobrir.
Como eu descobri.
É abrir as asas e verificar a sua grandeza. A beleza das suas cores. A leveza do voar.
E esperar que não descubram a dor de perder as asas de uma forma tão cruel.
Transportar sempre que possa, no meu saquinho preso à cintura, o pó mágico daquelas que foram um dia as minhas asas. O pó mágico de asa de borboleta. O pó que cura.
E sentar-me cá em baixo a olhar o céu.
A agradecer-lhe ter-me acolhido
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Wednesday, February 09, 2005
Continuo a caminhar nos teus ramos.
Agora com outro olhar. Agora a caminhar devagar, com cuidado para não cair.
Gosto de me sentar na pontinha dos ramos e ficar a olhar lá para baixo.
Perder-me em sonhos de um dia, que hoje já nem sei se foram reais.
E um "glimp" faz-me acordar. Sacode-me e penetra-me o olhar obrigando-me a acreditar que sim; que os sonhos de um dia foram reais.
E aí entro em mim, pela íris do meu olhar. Circulo no meu sangue, em calores, arrepios, tremuras, sorrisos e lágrimas.
Os meus vôos...
As minhas asas...
Perco a ligação com o exterior, por vezes.
Que saudades de voar...
Que saudades de te rodear em vôo.
De te pedir que me acompanhes a viagem.
Acordo de mim abanada pelo vento nos frágeis ramos em que me encontro.
Não... Não hei-de cair.
Obrigo-me a descer.
"Nem penses em ficar aí em cima" digo para mim.
Desço e a tristeza volta. A dor de já não ter asas.
A dor de já não poder voar...
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Sunday, January 23, 2005
Não consigo localizar na minha mente o momento exacto em que me arrancaram as asas.
Descubro apenas, em mim, uma forte dor, a partir desse momento.
Uma terrível vontade de chorar, uma profunda sensação de morte.
Procuro-me fundo me mim, em vão.
Olho para o alto e vejo os teus ramos afastarem-se cada vez mais.
Tantos voos que dei à tua volta. Contigo. Sem ti. Apenas a olhar-te. A sentir-te.
Hoje não consigo voar. E mal te consigo ver. Apenas te sinto.
Vejo-vos voar para longe e obrigo-me a olhar.
"precisas reaprender a viver"- ouço-me dizer
...precisas reaprender a viver
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Wednesday, January 19, 2005
O vento voltou a soprar. Desta vez de uma forma tão intensa, que pareço nem me mexer. Voltei a ser atirada contra algo. Olho para cima e apercebo-me ser a árvore onde cresci.
Não sinto as asas. Não sei se as consigo mexer.
Sinto que estou a morrer.
As outras fadas unem-se à minha volta e levam-me para entre as raízes, onde me abrigam. Preocupa-me o olhar preocupado delas.
Sinto-me morrer
Sinto as forças fugir pelos olhos. "As fadas não choram", dissera-me a minha guardiã, um dia.
As fadas não choram...
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Monday, January 17, 2005
Por vezes sinto uma vontade forte de chorar.
Vejo-te à minha frente, num corpo que não é o teu.
E invento, ou imagino, ou pressinto, prevejo...
Sem saber o que pensar, grito para mim e sorrio para todos.
Encolho-me, como presa assustada perante um inimigo mais forte.
Procuro-me forte dentro de mim e nem me descubro.
E se me perco?
Tenho receio...
E se me perco??
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Tuesday, December 07, 2004
Madrugada.
Estou num bosque encantado. Que não existe. Sei disso.
Uma névoa densa cerca-me. As folhas secas picam-me os pés. Reparo que estou descalça. As lágrimas caem-me e salpicam-me os pés descalços. O ruído da sua queda assusta os pássaros que levantam voo apressadamente. São melros, parece-me. Pássaros negros de bico laranja.
Procuro as mãos, mas não as vejo, apesar de saber que estão lá.
Não sei se caminho ou se estou imóvel. Sei apenas que estou sozinha.
A névoa adensa-se cada vez mais. Pingam gotas frias das folhas das árvores. Atrás de mim. Rodopio à sua procura. Molham-me. Estico os braços no ar. Tombo a cabeça. Encosto-me a um tronco. Assisto ao pingar constante. Assemelha-se a uma qualquer melodia.
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Sunday, October 24, 2004
Sinto, por vezes, vontade de fugir do mundo. De repente desaparecer, sem roupa, para dentro de um qualquer bosque. Ser capaz de o fazer.
Entregar-me apenas aos meus sonhos, já que são, frequentemente, mais agradáveis que a realidade que circula à minha volta como um túnel de vento.
Imagino
Corro de início, para que ninguém me veja entrar. Vou a tremer. Sinto choques por todo o corpo, provocados pelos nervos consequentes de uma tão grande decisão. Choro com saudades de pessoas, de coisas, mas não consigo parar de correr. Talvez um dia volte, talvez...
Nem sei por onde ir. Não conheço o bosque nem tenho grande poder de orientação. Imagino que vou ter a um local suficientemente distante de tudo. De ruídos humanos. De gente.
Apenas uma pessoa soube da minha decisão e, apesar de lhe ter sido difícil, aceitou-o, talvez por pensar que não levaria este desejo avante.
Sinto a primeira noite como o mais difícil dos passos. Os barulhos da noite. O vento. O frio. Os animais. Os bicharocos. As saudades.
Sonho com o momento em que, talvez em delírio, vou realmente encontrar o que procuro. A magia que procuro dentro de cada bosque, nas manhãs frias de Outono em que o nevoeiro se arrasta pelo limiar entre esse e este mundo. Entre essa e esta realidade. Imagino algo semelhante a loucura. Suja, cabelos desgrenhados, nua, a rodopiar até cair. A sorrir de felicidade. Sem vergonha da nudez por saber que ninguém me vê, que nem eu própria me posso ver. Já não tenho consciência do meu exterior. Mesmo imaginando que pudesse nunca ver- ver com os olhos- aquilo que procuro, sei que o desejo tanto que aconteceria.
Um som. Uma minúscula brisa. Uma ruído semelhante a uma qualquer voz, humana ou não humana. Preferivelmente não humana.
A única música ser-me-ia dada pelos sons. Agachada em cima de um molhe de folhas, encostada a uma árvore. Deitada, olhando o céu. Como moldura a copa das árvores. Uma moldura em movimento constante. A correr. Sem pressa. A correr por correr. A chorar. a cantar. A falar para ninguém. A gritar. A limpar a pele salpicada de pó. A contar as fendas da pele. A descobrir no meu corpo pormenores para os quais antes não tinha tempo. Nem espaço. A limpar as lágrimas com as costas da mão.
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Tuesday, October 12, 2004
...e enquanto atravessava aqueles grupos de nevoeiro o meu único receio foi o de descobrir algum ser.
algum desses seres que se escondem de nós
sei que, ao fugir, o nevoeiro os escondia
servia-lhes de guardião
tinham-se atrasado
com todo o entusiasmo da chegada do frio de Outono tinham-se esquecido que começava a chegar a hora proibida
a rapidez com que se movia, o cuidado com que se arrastava parecendo flutuar por entre as árvores, era isso que significava
sei que sim
e eu quase fechava os olhos
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Wednesday, September 15, 2004
A chuva está a cair lá fora e nem a ouço
Sei que também o vento sopra
Sei que as folhas estão a cair das árvores
Mas nem dou conta
Sinto apenas frio
esfrego os braços e arrepio-me
fecho os olhos para não ver
mordo os lábios para não sentir
Posted at Wednesday, September 15, 2004 by fadazul
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Saturday, September 11, 2004
A ti,
borboleta colorida que espreitas à minha janela
as tuas cores fogem-me dos olhos
pelo bater rápido das tuas asas
não fujas
deixa-me, por um momento mais, ver
as tuas cores...
o pó mágico que povoa as tuas asas...
esse, com que curas...
Posted at Saturday, September 11, 2004 by fadazul
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