Sinto, por vezes, vontade de fugir do mundo. De repente desaparecer, sem roupa, para dentro de um qualquer bosque. Ser capaz de o fazer.
Entregar-me apenas aos meus sonhos, já que são, frequentemente, mais agradáveis que a realidade que circula à minha volta como um túnel de vento.
Imagino
Corro de início, para que ninguém me veja entrar. Vou a tremer. Sinto choques por todo o corpo, provocados pelos nervos consequentes de uma tão grande decisão. Choro com saudades de pessoas, de coisas, mas não consigo parar de correr. Talvez um dia volte, talvez...
Nem sei por onde ir. Não conheço o bosque nem tenho grande poder de orientação. Imagino que vou ter a um local suficientemente distante de tudo. De ruídos humanos. De gente.
Apenas uma pessoa soube da minha decisão e, apesar de lhe ter sido difícil, aceitou-o, talvez por pensar que não levaria este desejo avante.
Sinto a primeira noite como o mais difícil dos passos. Os barulhos da noite. O vento. O frio. Os animais. Os bicharocos. As saudades.
Sonho com o momento em que, talvez em delírio, vou realmente encontrar o que procuro. A magia que procuro dentro de cada bosque, nas manhãs frias de Outono em que o nevoeiro se arrasta pelo limiar entre esse e este mundo. Entre essa e esta realidade. Imagino algo semelhante a loucura. Suja, cabelos desgrenhados, nua, a rodopiar até cair. A sorrir de felicidade. Sem vergonha da nudez por saber que ninguém me vê, que nem eu própria me posso ver. Já não tenho consciência do meu exterior. Mesmo imaginando que pudesse nunca ver- ver com os olhos- aquilo que procuro, sei que o desejo tanto que aconteceria.
Um som. Uma minúscula brisa. Uma ruído semelhante a uma qualquer voz, humana ou não humana. Preferivelmente não humana.
A única música ser-me-ia dada pelos sons. Agachada em cima de um molhe de folhas, encostada a uma árvore. Deitada, olhando o céu. Como moldura a copa das árvores. Uma moldura em movimento constante. A correr. Sem pressa. A correr por correr. A chorar. a cantar. A falar para ninguém. A gritar. A limpar a pele salpicada de pó. A contar as fendas da pele. A descobrir no meu corpo pormenores para os quais antes não tinha tempo. Nem espaço. A limpar as lágrimas com as costas da mão.
Posted at Sunday, October 24, 2004 by fadazul